sábado, 19 de março de 2011

Análise do poema "Profissão de fé" de Olavo Bilac

 
       Revirando o baú das Letras, encontrei alguns trabalhos que realizei durante o curso de Letras da Unisinos. Comecei a relê-los para matar um pouco a saudade e relembrar certos conceitos de teoria literária que já andavam um pouco esquecidos. Resolvi por fim, postar aqui no blog, os meus melhores trabalhos acadêmicos. Aqueles que passaram pelo crivo dos meus exigentes mestres. Este que segue, por exemplo, foi elaborado para a disciplina Literatura da Primeira Metade do Século XX. Ah! Solicitado pela tão temida professora Dra. Célia Doris Becker. Uma excelente professora. Quem sobreviveu as suas aulas lembra dela com um certo saudosismo.
      O traço mais característico da poética parnasiana presente no poema Profissão de fé de Olavo Bilac é o culto excessivo pela forma perfeita, por meio da utilização de rimas ricas, raras e perfeitas, vocábulos extremamente refinados e complexos, tornando a poesia uma atividade da elite intelectual brasileira. A sintaxe poética também obedecia as regras gramaticais da época para, desta forma, adequar-se as normas consagradas da escrita. Essas eram algumas das regras estabelecidas pelos parnasianos para que a poesia fosse completa e perfeita.

Os seguintes versos podem comprovar o culto excessivo à forma:

Rimas perfeitas

"Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e enfim,
No verso de ouro, engasga a rima,
Como um rubim."

      Percebe-se neste trecho a ultilização da sequência ABAB. É importante também frisar a modificação que o autor faz na palavra "rubi" transformando-a em "rubim" almejando assim a rima perfeita.

Endeusamento a forma:

"Deusa! A onda vil, que se avoluma
De um torço mar,
Deixa-a crescer; e o lodo e a espuma
Deixa-a rolar!"

Vocabulário refinado:

"Este, que, de entre os mais, o vulto
Ferrenho alteia,
E, em jacto expele o amargo insulto
Que te enlameia:

Culto a língua:

"Ver esta língua, que cultivo,
Sem ouropéis,
Mirrada ao hálito nocivo
Dos infiéis!"

      Olavo Bilac compara o poeta com o ourives. Para ele, ambas as profissões, tanto a ourivesaria quanto a poesia buscam a perfeição, por meio de um trabalho árduo e difícil. Bilac acentua a importância das palavras precisas, do cuidado com as frases e realça o polimento dos versos, para que o poema se torne uma espécie de objeto precioso, semelhante a uma jóia rara. O trabalho artesanal a que o o poeta parnasiano atribui às palavras é para o autor semelhante ao do ourives, perseverante, delicado e cheio de dedicação e minuciosidade.
      Todavia, Bilac não vê nenhuma semelhança entre o poeta e o escultor, visto que o escultor para produzir uma obra modifica totalmente sua matéria prima, criando um novo objeto a partir de suas inspirações. Já o poeta parnasiano se utiliza da palavra (matéria prima) somente aprimorando-a e adaptando-a para que o estilo prevaleça, ou seja, buscando somente a perfeição formal. Por esse motivo, Olavo Bilac não vê semelhanças entre o poeta e o escultor. Contrariando essa ideia, ele compara o poeta ao ourives já que esse trabalha minuciosamente para que a matéria prima (ouro, pedra preciosa) seja apenas lapidada sem modificar sua essência, não deixando de ser uma pedra preciosa e valiosa. Em outras palavras, o trabalho do escultor é uma matéria bruta em contraposição a um material tão delicado como o ouro (trabalho do ourives).
      De acordo com Bilac, a preocupação primeira do poeta parnasiano deveria ser a de produzir uma poesia formalmente perfeita, isto é, utilizando uma linguagem elaborada, rimas perfeitas, sintaxe tradicional, não se atendo ao conteúdo das palavras sendo superficial. Sua real preocupação era com o estilo e não com a profundidade das ideias e sentimentos do poeta. A meu ver, o parnasianismo peca neste sentido, pois se apega muito ao estilo e esquece do verdadeiro sentido da poesia que é tocar os sentimentos das pessoas. Levar o leitor a um transbordamento de emoções.
      Na concepção dos parnasianos o conceito da poesia está muito ligado a visão “arte pela arte”, ou seja, a pretensão da universalidade através da utilização de uma linguagem objetiva que promove a contenção dos sentimentos e também a excessiva busca pela perfeição formal. O poeta modernista Oswald de Andrade sintetiza muito bem essa característica parnasiana quando diz que: "Só não se inventou uma máquina de fazer versos- já que havia o poeta parnasiano”.
Segue o poema na íntegra:

Profissão de fé


Não quero o Zeus Capitolino

Hercúleo e belo,
Talhar no mármore divino
Com o camartelo.

Que outro - não eu! - a pedra corte
Para, brutal,
Erguer de Atene o altivo porte
Descomunal.


Mais que esse vulto extraordinário,
Que assombra a vista,
Seduz-me um leve relicário
De fino artista.

Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.

Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.

Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.

Corre; desenha, enfeita a imagem,
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.

Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.

Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:

E que o lavor do verso, acaso,
Por tão subtil,
Possa o lavor lembrar de um vaso
De Becerril.

E horas sem conto passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.

Porque o escrever - tanta perícia,
Tanta requer,
Que oficio tal... nem há notícia
De outro qualquer.

Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!

Deusa! A onda vil, que se avoluma
De um torvo mar,
Deixa-a crescer; e o lodo e a espuma
Deixa-a rolar!

Blasfemo> em grita surda e horrendo
ヘmpeto, o bando
Venha dos bárbaros crescendo,
Vociferando...

Deixa-o: que venha e uivando passe
- Bando feroz!
Não se te mude a cor da face
E o tom da voz!

Olha-os somente, armada e pronta,
Radiante e bela:
E, ao braço o escudo> a raiva afronta
Dessa procela!

Este que à frente vem, e o todo
Possui minaz
De um vândalo ou de um visigodo,
Cruel e audaz;

Este, que, de entre os mais, o vulto
Ferrenho alteia,
E, em jato, expele o amargo insulto
Que te enlameia:

em vão que as forças cansa, e â luta
Se atira; é em vão
Que brande no ar a maça bruta
A bruta mão.

Não morrerás, Deusa sublime!
Do trono egrégio
Assistirás intacta ao crime
Do sacrilégio.

E, se morreres por ventura,
Possa eu morrer
Contigo, e a mesma noite escura
Nos envolver!

Ah! ver por terra, profanada,
A ara partida
E a Arte imortal aos pés calcada,
Prostituída!...

Ver derribar do eterno sólio
O Belo, e o som
Ouvir da queda do Acropólio,
Do Partenon!...

Sem sacerdote, a Crença morta
Sentir, e o susto
Ver, e o extermínio, entrando a porta
Do templo augusto!...

Ver esta língua, que cultivo,
Sem ouropéis,
Mirrada ao hálito nocivo
Dos infiéis!...

Não! Morra tudo que me é caro,
Fique eu sozinho!
Que não encontre um só amparo
Em meu caminho!

Que a minha dor nem a um amigo
Inspire dó...
Mas, ah! que eu fique só contigo,
Contigo só!

Vive! que eu viverei servindo
Teu culto, e, obscuro,
Tuas custódias esculpindo
No ouro mais puro.

Celebrarei o teu oficio
No altar: porém,
Se inda é pequeno o sacrifício,
Morra eu também!

Caia eu também, sem esperança,
Porém tranqüilo,
Inda, ao cair, vibrando a lança,
Em prol do Estilo!

Olavo Bilac


      Para os críticos, o poema os sapos- poema concebido por Manuel Bandeira- constitui uma crítica ao estilo explorado pelos poetas e composições parnasianas. A crítica presente no poema Os sapos é contra a concepção adotada pelos parnasianos da "arte pela arte", é um manifesto do poeta incorformado diante dos modelos e limitações da estética parnasiana, do endeusamento a forma que é reduzida a "forma" em busca do estilo poético pefeito e do total desligamento com a realidade do nosso país. Adotando valores europeus e fechando os olhos para os problemas locais, ou seja, substituindo o país concreto pela antiguidade greco-romana, os poetas parnasianos camuflam a realidade pintando o Brasil através da perspectiva das belezas naturais e do patriotismo.

Nos versos a seguir verificamos esta crítica:
"Clame a saparia
Em cíticas céticas
Não há mais poesia
Mas há artes poéticas..."

"Vai por conquenta anos
Que lhes dei norma:
Reduzi sem danos
A fôrma a forma"

Manuel Bandeira

      No poema Os sapos encontramos elementos que simbolizam as inovações pretendidas pelos poetas que representam o movimento modernista. Nesta nova concepção, a poesia passa a ter um objetivo definido não caracterizado por uma arte passiva que apenas descreve sem se aprofundar nas questões humanas. O modernismo mostra preocupação com a realidade (social, política, econômica). A poesia modernista revela interesse com o conteúdo e principalmente com a liberdade de expressão, condena a formalidade imposta pelos parnasianos preocupados demasiadamente com o estilo obedecendo assim somente às regras e às normas.
      Já no poema Poética de Manuel Bandeira, formalmente identificamos a liberdade de expressão, pois seu vocabulário é simples, não há pontuação. Predominantemente o ritmo é livre, ou seja, sem rimas, os versos não obedecem a métrica, desta forma o poeta sintetiza os preceitos básicos do novo ideário modernista criticando o modelo parnasiano que excessivamente dá preferência a forma e ao estilo. Crítica o lirismo sem objetivo, convencional, bitolado as regras e normas da poética propondo uma poesia chocante, reveladora, crítica e inovadora. Nos trechos a seguir verificamos esta crítica:

"Abaixo aos puristas
Todas as palavras sobretudo aos barbarismos
         [universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes
         [de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis"

Manuel Bandeira

8 comentários:

  1. Belas palavras!! Estou trabalhando neste poema em literatura, gostei da sua análise.bjs

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  3. trabalho perfeito... vou realizar um exame de literatura brasileira e excelente ajuda mesmo
    Gostei

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  5. Me ajudou bastante , obrigada.

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  6. Oi, Ana Paula!

    Amei suas análises! Parabéns! E continue apaixonada pelo que você vive, pois onde há paixão, haverá infinitas construções. Um abraço.

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  7. O enunciador sugere vestir a ideia com uma "ampla roupagem azul-celeste" que roupagem é essa?

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  8. Fabiana Marucci28 setembro, 2014

    Adorei a sua análise estou fazendo um trabalho e me ajudo muito, parabéns pelo seu trabalho.

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